quinta-feira, 28 de julho de 2016

O contador de histórias, a literatura e o vulcão

Por Cléber Santiago


No último dia 7 de julho, o Cepac teve o prazer de receber Ricardo Azevedo, autor e ilustrador de dezenas de livros infanto-juvenis e vencedor do Prêmio Jabuti por cinco vezes, a mais importante premiação literária do país.

O escritor atendeu ao convite feito pelo Filipe, gestor de aprendizagem institucional, para falar um pouco à equipe de colaboradores sobre sua carreira e experiências de sucesso que fizeram parte de sua trajetória.

Descontraído, ele contou um pouco sobre ela, sem medo de assumir: “Fui mau aluno na escola e reprovei dois anos. Mas tirava boas notas em redação”. Aos 16 anos costumava ler as revistas de intercâmbio cultural que seu pai recebia em casa e, graças a elas, se deparou com O homem que não queria saber de mais nada e outras histórias, clássico do escritor e jornalista alemão Peter Bichsel.

Esse primeiro contato com a literatura lhe deu muitas ideias. Uma delas foi colecionar recortes de jornais e notícias para que pudessem servir de inspiração (palavra que ele diz veementemente não gostar) no futuro. Em 1980 publicou o seu primeiro livro chamado O peixe que sabia cantar e em 1982 estreou na Folhinha, contribuindo com sua arte. Questionado sobre como surgem suas histórias e personagens, o autor responde: “O texto vem de fora, ele sai do próprio texto. Os personagens vão aparecendo no papel”.

Desde então, Ricardo tem viajado não apenas para levar suas histórias às crianças e escolas de todo país, mas para continuar sua coleção, agora de livros: “Em todas as cidades que visito, vou ao sebo atrás de livros, contos regionais, da cultura popular.” No entanto, ele adverte: “Contos populares são sérios, não são contos infantis. Como sempre tive dúvidas sobre faixas etárias, busco escrever textos que crianças e adultos se identifiquem. Esse é o meu foco”.

O escritor e ilustrador, que também é Doutor em Letras e pesquisador no campo de Cultura Popular, acredita que temas complexos podem ser trazidos ao universo infantil. Mas ele lamenta o fato de o Brasil ser uma nação que não lê. Por isso, o papel da escola e do professor na formação das crianças e adolescentes é determinante para despertar o interesse pela leitura e explorar as muitas possibilidades de interpretações que os livros oferecem.

Ricardo, que defende escola de tempo integral, pública e de qualidade para que “possa haver igualdade de oportunidade a todos”, questiona: “Se a escola for um lugar onde os alunos só repetem, qual é a função dela?” Em sua opinião, a educação precisa ser democratizada; é necessário que haja pluralidade de interpretações. Os livros didáticos “forçam as crianças a terem 100% de interpretação única.”

É aí que entra a literatura. Para o escritor a literatura “permite novas descrições do mundo e os professores que sabem disso estimulam a criatividade”.

Aos instrutores e à equipe que lidam com os jovens aqui do Cepac, Ricardo dá um conselho: “O professor que cumpre a preparação é um mau professor. Tem de haver um brilho nos olhos de vocês educadores. Leiam coisas que mexam com vocês, isso irá inspirá-los. Poesia, por exemplo, é uma forma de aproximação. Despertem o vulcão de emoções que existe dentro de vocês e irão contagiar a todos”.

Cléber é jornalista, responsável pela Comunicação Institucional do Cepac a partir de 2016.