terça-feira, 28 de junho de 2016

Sou careta sim!

Entrevista realizada com Juan Victor Rodrigues de Oliveira

O Parque Imperial é um bairro na periferia de Barueri, onde o Cepac está instalado. O alto índice de criminalidade e o consumo de entorpecentes é comum na região, agravantes que podem comprometer o futuro dos jovens e suas famílias. A instituição faz um trabalho intenso de conscientização em suas oficinas para garantir que os adolescentes possam ter acesso à informação e ficar longe do mundo das drogas. 

Por isso, pedimos para que o aprendiz expressasse as suas ideias a respeito do assunto e a entrevista, na íntegra, segue abaixo:

Você já experimentou drogas?

Nunca tive experiência com drogas, apenas álcool. Não sei como é a “brisa”, qual é a sensação, não faço ideia de como é a adrenalina. Qual é o sabor? Não quero saber nem ter experiência com isso. A única coisa que sei e aprendi é que é errado.

Quem te ajudou a formar opinião a respeito deste tema que é tão sensível para os adolescentes da sua idade?

Meus pais. Eles me ensinaram que isso não é o certo a se fazer. Desde pequeno meu pai e minha mãe têm falado e conversado comigo sobre o assunto. Sempre pegaram no meu pé, me aconselharam. Eu costumava dizer que eles eram chatos e caretas, pois não deixavam eu agir de acordo com a minha própria vontade. Hoje sei que o que eles diziam e dizem é para o meu bem.

O ambiente em que a sua família e seus amigos estão inseridos contribui para o consumo de drogas ilícitas? Como você se sente em relação ao que acontece com os que estão ao seu redor?

Moro na favela, onde há muitos usuários de drogas, alguns são meus amigos desde pequenos. Vê-los em tal situação me dá uma tristeza, tenho pena de suas famílias. Também tenho a certeza de que meus pais ficariam com uma dor no coração se soubessem que fosse usuário. Eu penso primeiro na minha família: o que seria deles se tivessem conhecimento de uma coisa assim? Por isso, penso muito antes de fazer as coisas e magoar as pessoas que amo.

Algo mais grave já chegou ao seu conhecimento?

Um amigo meu ficou internado por quase cinco meses porque ele usava muita droga. Ele é um exemplo para não me envolver.

Com que frequência os adolescentes do seu bairro têm acesso a entorpecentes? O que você acha disso?

Todos os dias eu tenho oportunidade de fumar maconha, “baforar lança”. Mas não, me diz pra quê isso? Pra você ser mais um, se tornar mais um usuário? Sofrer, destruir a minha vida por causa de um momento? Sai fora! Estou “bem de boa”. Sou feliz assim sem usar nenhum tipo de droga. Não preciso delas para viver, vivo muito bem sem elas e vou continuar vivendo.

E o que os seus amigos, colegas do colégio, acham de você querer ser careta?

Podem me chamar de covarde, do que quiserem, não ligo. Minha vida não é feita de opiniões dos outros, e sim feita de escolhas e a escolha que eu tomo é esta. E são escolhas como esta que me tornam quem eu sou hoje: um trabalhador pobre que tem sonhos e vontade. Mas não esse tipo de vontade. Tenho vontade de vencer na vida, ser alguém. Um homem que nunca usou nada, totalmente limpo, sem ter a cabeça pesada, preocupações. Desejo apenas o melhor pra mim e para minha família.

Como os outros podem seguir o seu exemplo?

Para ser como eu não precisa de muita coisa. Pais conscientes, uma mente limpa, estar ciente do que está acontecendo agora: existem pessoas morrendo e perdendo tudo por causa de drogas.

Qual o recado que você manda para os jovens do seu bairro?

Vem comigo! Vamos fazer um Brasil diferente, não mais um país que tem um alto índice de usuários*, vamos tornar este país diferente. Seja consciente de tudo o que você está fazendo para não se arrepender depois. Se liga que a vida é curta. Então vamos curtir, sem drogas. Ainda mais porque somos jovens e temos uma vida toda pela frente. Uma enorme jornada, uma longa história que pode ser vivida com muita saúde e alegria.

*O Brasil é o segundo país que mais consome cocaína e derivados no mundo. (2015) Fonte JIFE - Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes.
Juan tem 16 anos e é aluno do Programa Aprendiz Cidadão. 

segunda-feira, 13 de junho de 2016

De óleo no futuro

Por Cléber Santiago

A Jasminy, com apenas 10 anos de idade, se tornou uma espécie de celebridade neste mês, depois de ter trazido 35 litros de óleo usado para (quase) encher uma das duas bombonas.

Em abril, o Cepac iniciou parceria com a Preserva Ambiental para captar óleo de cozinha usado e transformar esse material em biocombustível. A ação, além de trazer benefícios à instituição, faz parte do Projeto De Óleo no Futuro, que visa conscientizar a população do bairro sobre os problemas que o descarte incorreto da substância causa ao meio ambiente.

“Um único litro de óleo é capaz de poluir até 20 mil litros de água. O que você fez impediu que cerca de 750 mil litros fossem contaminados, ou o equivalente ao consumo mensal de 50 famílias daqui do Parque Imperial”, soube a pequena. Boquiaberta, ela tentava acompanhar o raciocínio por trás dos números...

“Você pensa que vai ajudar um pouquinho, e acaba descobrindo que fez um monte de coisas boas”, disse espantada com o impacto daquela possibilidade.

Ela é uma garota de sorte.

No dia em que os instrutores informaram as crianças sobre a parceria e o que elas fariam para ajudar, Jasminy não veio ao Cepac. Graças ao uso das redes sociais, soube o que tinha de fazer e logo mobilizou a mãe, que também recicla óleo de cozinha usado para produzir sabão artesanal.

Mas não parou por aí. Ela também foi à feira e pediu o óleo de fritura da barraca de pastel e teve que fazer duas viagens de bicicleta para poder carregar todos os galões que conseguiu encher com a doação.

A mãe, orgulhosa, a ajudou a trazer a bicicleta com os 35 litros de óleo na manhã fria de 16 de maio. E o que ela pensa disso? “Minha mãe achou incrível! Ela gosta de ajudar as pessoas porque acredita que o mundo ainda é bom e as pessoas são boas”.

E você? “Eu sinto uma alegria inexplicável. Ajudar não é difícil. Se todo mundo soubesse o quanto pode ser útil, isso já seria o suficiente para ajudar”.

Cléber é jornalista, responsável pela Comunicação Institucional do Cepac a partir de 2016.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Homens de verdade


Prefácio

Ao longo do mês de março, os alunos do Projeto Profissionalizante foram incentivados a desenvolver uma variedade de atividades em que puderam discutir a situação da mulher dentro do contexto social no nosso país. Entre rodas de conversa, arte e, cartazes e textos, selecionamos uma pérola para dividir com vocês neste espaço.

Por Caio Matheus Araújo Aranega

Desconsiderando as diferenças físicas entre homem e mulher, não existe nenhuma outra diferença entre eles ou, pelo menos, não deveria existir.

A ideia de que um é melhor do que o outro, mais habilitado, mais capaz, pode ser considerada um absurdo, pois não é o sexo de alguém que define a sua competência.

Mas o fato é que, apesar de toda essa luta – recompensada sim, sonhar com uma sociedade totalmente igualitária pode ser considerado um objetivo utópico alcançável, se todos trabalharem por isso.

Afinal, o estereótipo de que o homem tem que ser mais forte, mais inteligente, de que pode mais, já é coisa do passado. As pessoas que ainda estão agindo assim são, de certo modo, primitivas, são aquelas que batem, oprimem e rebaixam as demais. 

Ser homem de verdade é ter respeito acima de tudo. É não deixar o cavalheirismo de lado, mas abrir espaço para a mulher ser e fazer o que ela quer. Um homem de verdade precisa, no mínimo, tentar arrancar o machismo que está culturalmente impregnado na sua essência.


Caio tem 16 anos e é aluno de Logística no Projeto Profissionalizante.