segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Lição para a vida



Por Claudete Michelassi

Com o passar dos anos, esquecemos quem realmente somos e, muitas vezes sem querer, nos tornamos o que os outros querem, o que o mercado quer, o que a moda dita, o que é mais aceito pela maioria, o que não dá trabalho... 

Por falar em trabalho, aceitei um novo desafio profissional (um emprego na área social, em vez do meio jurídico) e desde então, diariamente, vivencio experiências maravilhosas, verdadeiros ensinamentos para a vida, cujos professores são "pessoinhas" que ainda não foram moldadas pelos pré-conceitos e padrões sociais. São jovens demais, puros e sinceros, apesar da pouca idade e, às vezes, só com o olhar nos ensinam tanto.

Fui visitar uma das nossas unidades (Casa Glorinha), que acolhe crianças e adolescentes que, de alguma maneira, tiveram suas vidas, direitos e dignidade violados. Por estes motivos, eles são retirados de seus núcleos familiares.

Encontrei um menininho de 7 ou 8 anos de idade, sentado de cabeça baixa na cozinha, totalmente concentrado em algo. Enquanto conversava com os colaboradores do abrigo, ele permanecia ali, dedicado ao que estava fazendo, como se que aquilo fosse a coisa mais importante do mundo.

Terminei a conversa e, curiosa, fui ver o que ele estava fazendo. Perguntei seu nome e percebi que ele acabava o desenho de um menino. Permaneci olhando até que terminasse os riscos certeiros e, automaticamente, o elogiei pela habilidade.

Sua reação veio com um olhar certeiro nos meus olhos, a aceitação do elogio junto com um sorriso e, sem pensar duas vezes, arrancou a folha com o desenho e me deu.

Fiquei emocionada e sem palavras. Aquela criança, que nunca havia me visto antes, me deu de presente o seu melhor: todo o seu talento, sua habilidade, seu tempo. Tudo o que possuía naquele momento.

Sem dizer uma única palavra, ele me ensinou algumas coisas:

Dedicação ao que se está fazendo, por mais simples ou complexo que seja, mesmo que ninguém esteja vendo;

Dar sempre o nosso melhor para os outros, independente se os conhecemos ou não;

Desapego.

Fui contemplada por um pouco da magia do cotidiano do meu trabalho. Apesar de trabalharmos duramente por remuneração no final do mês, não há dinheiro que pague experiências como essa.

Obrigada G.*


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Claudete é advogada, trabalha com mobilização de recursos no Cepac há um ano.